quinta-feira, 21 de novembro de 2013

GESTÃO E LIDERANÇA - A VERDADEIRA FUNÇÃO DOS RECURSOS HUMANOS (RH)





  Se os RH são a parte mais poderosa de uma organização, como dizem sempre, porque é que o seu impacto é apenas sentido de modo negativo?


  Porque em muitas empresas, infelizmente os RH não funcionam correctamente - ou operam como se fossem uma sociedade secreta ou espectáculos de riso e choro. Estes são exemplos extremos, é claro, mas, se há alguma coisa que aprendi durante a minha carreira profissional e pelas viagens contactos que fiz, é que os RH  raramente funcionam como deviam.
  Isto é um escândalo e é ainda pior pelo facto de que a maioria dos líderes não andar apressada a tentar resolver a situação.
  Sem rodeios: os RH deviam ser a única aplicação invencível de qualquer empresa. O que pode ser mais importante do que quem é recrutado, desenvolvido, promovido ou convidado a sair? No fim de contas, os negócios são um jogo e, como em todos os jogos, a equipa que põe as melhores pessoas em campo e a jogar em conjunto vence. É tão simples quanto isso. Nunca se aperceberia disso, porém, ao olhar para as empresas hoje em dia onde o director financeiro é o rei supremo e os RH são relegados para segundo plano. Não faz sentido. Se fosse dono do Benfica, por exemplo, passaria e seu tempo com o contabilista ou com o director de pessoal incluindo os atletas? Claro, o contabilista pode informá-lo sobre os aspectos financeiros. Mas o director de pessoal sabe o que é preciso para vencer: a qualidade de cada jogador e onde encontrar substitutos fortes para preencher as lacunas de talento. 
  É assim que os RH deviam ser.
  Quando se pergunta à generalidade dos directores dos Recursos Humanos se nas empresas onde trabalham o CEO concede aos RH um lugar à mesa igual ao do director financeiro, a resposta é que não têm esse privilégio. É terrível!
  Mas então porque é que os RH se tornaram tão marginalizados sabendo nós que existem apenas dois pólos de mau comportamento o "sociedade secreta " que acontece quando os gestores de RH  se tornam pequenos fazedores dissimulados de "Reis", construindo e destruindo carreiras, por vezes nem sequer sob ordens do CEO. Estes departamentos de RH podem realmente ser poderosos mas, frequentemente, de forma prejudicial, levando as melhores pessoas a sair apenas para fugir da intriga palaciana. Muitas vezes, porém também encontramos o outro extremo:departamentos de RH que planeiam piqueniques, editam a newsletter da empresa e, em geral enlouquecem todos quando impõem regras e regulamentações que parecem não ter qualquer objectivo a não ser aumentar a burocracia. Retiram o pouco poder que têm do facto de serem a polícia que diz "não pode fazer isso."
  Então como é que os bons líderes resolvem esta confusão?
  Tudo começa com quem nomeiam para gerir os RH - nem fazedores de reis nem polícias, mas jogadores de primeira liga, pessoas de verdadeiro prestígio e credibilidade. Na realidade, precisam de encher os RH com uma espécie híbrida: pessoas que são metade pastor, que ouvem todos os pecados e queixas sem os recriminarem, e outra metade pais, afectuosos e protectores mas que nos castigam quando passamos das marcas.
  Os pastores-pais podem ascender até aos  RH e, na maioria dos casos, já geriram alguma coisa durante as suas carreiras, tal como por exemplo uma fábrica, ou ocuparam alguma função importante. Eles entendem o mundo dos negócios - o seu modo de funcionamento interno, a sua história e tensões e as hierarquias escondidas na mente das pessoas. São conhecidos por serem inflexivelmente francos, mesmo quando a mensagem é dura, e não divulgam confidências. De facto, com a sua perspicácia e integridade, os pastores-pais ganham a confiança da organização.
  Mas os pastores-pais não passam o tempo a fazer com que as pessoas se sintam reconfortadas e felizes. Tornam a empresa melhor, porque acima de tudo ao orientarem um rigoroso sistema de apreciação e avaliação que informa todos na organização em que situação se encontram, e ao monitorizarem esse sistema com a mesma integridade de acordo com a  boa governação e a ética nos negócios da empresa.
  Os líderes devem também certificar-se de que os RH  desempenham dois outros papeis. Devem criar mecanismos eficazes, como dinheiro, reconhecimento e formação, com o objectivo de motivar e reter as pessoas. E devem estimular as organizações a enfrentarem a suas relações mais tensas, tais como com sindicatos, aqueles que apresentam resultados insuficientes, ou "estrelas" que se estão a tornar problemáticas, por exemplo, ao "incharem" em vez de crescerem.
  Este tipo de actividade de RH de grande impacto, parece provavelmente, um sonho irrealizável. Mas visto que a maioria dos CEO anunciam em alto e bom som que as pessoas são o seu "activo mais valioso" não devia ser assim.
  Não pode ser. Os líderes  têm de parar de falar e começar a agir e a pôr os RH a fazer o que lhes realmente compete: elevar a gestão de pessoal até ao mesmo nível de profissionalismo e integridade da gestão financeira.
  Uma vez que as pessoas são o jogo, o que poderia ser mais importante?



 Jorge Neves



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

GESTÃO E LIDERANÇA - OS LIMITES DA FRANQUEZA - OU NÃO






  Quando iniciei a minha vida profissional e assumi o cargo pela coordenação e orientação de equipas de vendas, acreditando profundamente no uso da franqueza, tinha medo de usá-la uma vez que nessa altura a maioria dos colaboradores tinham quase o dobro da minha idade.
  Senti-me de facto desconfortável ao usar a franqueza com quem quase parecia ser meu pai, mas também tinha a certeza que os "velhos" detestam  o uso da gíria, da ambiguidade e da linguagem evasiva. Aliás tendo eles sofrido com tudo isto durante décadas, é de esperar que aplaudissem o meu esforço por ser directo, especialmente depois de ter desaparecido o choque do primeiro impacto.
  Choque porque, sem dúvida houve um período duro de adaptação quando comecei a falar directa e honestamente sobre o desempenho e resultados. A maioria independentemente da idade - não estava habituada. Mas tive de usar a franqueza de qualquer forma. No final a franqueza funciona sempre e torna sempre o trabalho melhor. Quando se prescinde de mensagens ambíguas e de avaliações de desempenho dissimuladas, uma equipa torna-se sempre mais rápida, mais criativa e mais enérgica. E, honestamente a franqueza é uma função de todos. Quando nos tornamos lideres de equipas de vendas, é nossa obrigação dizer a todos os que trabalham connosco e a cada um em particular, de como se encontram na organização. É assim que se constrói a melhor equipa e a que vence.
  Esta questão do uso da franqueza não é de todo invulgar. Já ouvimos todas as desculpas possíveis para não se  ser franco; vai por exemplo contra a cortesia, o igualitarismo, hierarquização e até a politização dentro das empresas, só para mencionar estas. Mas a questão da idade é de longe a razão mais comum para o desconforto.
  Esqueça-a. Alguns  "Cotas" podem, a princípio, estar contra, mas os realmente bons estão à muito mais tempo do que  se pensa, à espera que chegasse a conversa sem rodeios.


  Jorge Neves

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

GESTÃO E LIDERANÇA - O PERIGO DE NÃO FAZER NADA






  Há dias numa conversa de café com amigo empresário no ramo da comunicação por fibra dizia-me o seguinte: «Lutamos muito para manter a empresa viável, mas agora é óbvio que o seu espaço de crescimento é muito mais limitado do que estávamos à espera. Devo desistir e começar de novo numa nova área ou manter-me no jogo da sobrevivência?»

  O jogo da sobrevivência é uma chatice e isso é uma realidade no sector da tecnologia. Aliás, manter-se firme numa empresa de tecnologia de fraco crescimento é um caminho rápido para o inferno da comoditização, onde será forçado a aguentar uma dolorosa eternidade de conflitos devido ao baixo custo com fabricantes offshore. É um caminho a não percorrer.
  Então, será melhor procurar-se uma nova área onde, juntamente com a equipa, poderá crescer e prosperar. Parece que a empresa do meu amigo tem um modelo de negócios em que a sobrevivência,  pelo menos no futuro mais próximo, é uma opção. Isso são boas notícias. Significa que o seu desfio imediato será colher todos os frutos que conseguir retirar do que tem, de modo a que o cash flow continue a entrar. Entretanto, poderá num novo jogo, alocar os recursos para adquirir um negócio ou começar um de novo. 
  Mas nada disto pode parecer particularmente fácil ou agradável - sair de um negócio nunca o é - mas pode existir o consolo ao saber que a situação é totalmente comum.
  O ambiente começa a mudar e de repente,  um negócio pode já não fazer tanto sentido. Isto acontece todos os dias, em todo o mundo, não apenas em start-ups empreendedoras. Na verdade, é particularmente comum em empresas antigas e já estabelecidas, onde novas dinâmicas competitivas emergem aparentemente vindas do nada para contrariar o statu quo. Infelizmente, demasiadas vezes nas empresas, certos negócios tornam-se de tal modo em santuários  que os gestores não reagem com o realismo lúcido que a conversa desse meu amigo empresário teve comigo.
  A mudança exige que os líderes derrotem todo o tipo de dinâmicas totalmente humanas, como a inércia, o carinho pela tradição e a esperança de que as coisas melhorem. Os momentos estratégicos exigem uma espécie de coragem, ou pelo menos a falta de sentimentalismos, o que é raro. É nestes momentos que os melhores líderes encontram e fazem uma pergunta determinante que o grande Peter Drucker, colocou há mais de cinquenta anos: "Se ainda não tivesse o seu negócio,investiria nele hoje?" Se a resposta fosse não, disse Drucker, era necessário enfrentar outra pergunta difícil: "O que vai fazer em relação a isso?" Todos os líderes hoje devem prestar atenção aos seus conselhos e, se for necessário, segui-los até ao fim, quer isso signifique recuperar, vender, comprar ou fechar negócio.
  Faça alguma coisa...Pois o perigo é não fazer nada!...


  Jorge Neves

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

GESTÃO E LIDERANÇA - RECRUTAR OS MELHORES





  Quais são os factores cruciais a pôr em prática para transformar sustentavelmente uma empresa no "empregador favorito"? E qual será um prazo realista para o conseguir?

  Numa empresa onde as pessoas querem mesmo trabalhar, tem-se nas mãos uma das vantagens competitivas mais poderosas neste jogo: a capacidade de recrutar e de colocar em campo a melhor equipa.
  Antes de falar quais as seis formas de chegar a essa situação abençoada, uma resposta sobre quanto tempo leva este processo até chegar a empregador favorito.
  Facilmente a resposta é anos e pode ser décadas ou mais. É assim que as coisas se passam com a reputação empresarial - constrói-se relatório anual após relatório anual, historial de carreira após historial de carreira, crise após crise (porque todas as empresas têm uma ou duas) e a recuperação após recuperação. Provavelmente demorou cerca de 30 anos para que a IBM ganhasse a reputação de empresa modelo dos anos 70, menos de uma década para a perder quando a empresa teve um deslize e depois cerca de uma década para a reconstruir até ao estatuto actual.
  No mundo de hoje saturado de meios de comunicação existe uma excepção à habitual lentidão na construção de reputação. As empresas podem tornar-se os empregadores favoritos para os seus colaboradores praticamente de um dia para o outro graças ao factor "buzz" que é tão potente como de rápido efeito. Numa empresa baseada em tecnologia, o "buzz" geralmente está ligado a um progresso novo ou a um produto ou serviço que altera o paradigma vigente. A Google e a Apple são exemplos perfeitos. O "buzz" também pode surgir do facto de ter uma marca com glamour ou de prestígio como a Chanel ou a Ferrari.
  Mas o factor "buzz" é tão raro como instável. A Aple tinha-o com a Mac, perdeu-a quando outros fabricantes de PC a ultrapassaram, mais tarde recuperou-o (e ainda ganhou mais algum) com o iPod. Esta história totalmente comum explica por que é que a maioria das empresas tem de se tornar num empregador favorito pela via antiga, arrancando-o a ferros ao longo do tempo.

  Segue-se uma lista de verificação para avaliar o progresso num empresa.

  Primeiro, os empregadores favoritos demonstram um verdadeiro empenho na aprendizagem contínua. Nada de adulações. Estas empresas investem no desenvolvimento dos seus colaboradores através de aulas, programas de formação e experiências fora da empresa, todos enviando a mensagem de que a organização está ansiosa por facilitar um percurso seguro para o desenvolvimento pessoal.

  Segundo, os empregadores favoritos são meritocracias. Os salários e as promoções que estão muito relacionados com o desempenho e os sistemas de avaliação rigorosos informam, constantemente, em que situação os colaboradores se encontram. Tal como em qualquer empresa, quem você conhece e a escola que frequentou podem ajudá-lo a entrar numa meritocracia. Mas, no fim de contas, o que importa são os resultados. Mas por que é que tudo isto torna uma empresa na "favorita" para se trabalhar? Muito simplesmente porque estes ambientes atraem sempre quem é mais inteligente, tem autoconfiança e espírito competitivo.

  Terceiro, os empregadores favoritos não só permitem que as pessoas corram riscos, como também comemoram com aqueles que o fazem e não martirizam os outros que não têm sucesso ao tentar. Tal como nas meritocracias, uma cultura que encoraja correr riscos atrai exactamente o género de indivíduos criativos e ousados que as empresas querem e de que necessitam num mercado global onde a inovação é a melhor defesa contra a inflexível concorrência de preços.

  Quarto, os empregadores favoritos compreendem que o que é bom para a sociedade é bom para os negócios. Sexo, raça e nacionalidade nunca são limitações; são importantes as ideias de todos. Os empregadores favoritos têm uma perspectiva variada e global e têm práticas sensíveis ao ambiente. Oferecem flexibilidade de horários de trabalho àqueles que o ganham através do seu desempenho. Como resultado, os empregadores favoritos são esclarecidos.

  Quinto, os empregadores favoritos mantêm rigorosos os seus padrões de recrutamento. Fazem os candidatos trabalhar arduamente, exigem um processo de entrevista penoso e critérios rígidos ao nível da inteligência e da experiência anterior. Este factor é quase como um círculo vicioso,visto que é difícil poder ser exigente antes de ser um empregador favorito! Mas vale a pena o esforço. Já que o talento tem uma forma estranha de atrair,bem, talento. 

  Sexto e último, os empregadores favoritos são rentáveis e estão em crescimento. Um aumento do preço das acções é, verdadeiramente, um íman de recrutamento.  Para além disso, apenas as empresas de sucesso podem oferecer-lhe um futuro, com ascensão de carreira e o potencial aumento de recompensas financeiras. De facto, uma das coisas mais estimulantes que uma empresa pode dizer a um potencial colaborador é: "Junte-se a nós para a viagem da sua vida."



  Jorge Neves

terça-feira, 5 de novembro de 2013

GESTÃO E LIDERANÇA - QUANDO CORTAR O CORDÃO








  «O nosso grande problema é o Albino, um dos gerentes que acabou de arruinar um grande projecto e não entende os prejuízos que causou. O meu instinto diz-me que o Albino deve ser despedido, mas a sua ausência pelo menos no início, irá afectar-nos. O Albino é um especialista técnico que está connosco desde o início. Porém, o seu mau estilo de gestão e alguma ausência de valores bem como a sua agenda dupla, atingiram um ponto insustentável. O Albino acredita que a década que passou ao serviço da empresa e a sua "lealdade" o protegem. É de concordar até certo ponto, mas é lícito que o desempenho seja mais importante. O que deve ser feito?»
  Era assim que há dias uma amiga minha numa conversa de café, desabafava comigo.

  As empresas pequenas ficam numa situação injusta quando se trata de despedir alguém. As grandes empresas podem adiar o processo durante muito tempo; existem outros colaboradores para encobrir os seus erros. E quando alguém com um desempenho fraco é finalmente convidado a sair da grande empresa, ele ou ela pode geralmente sair por uma porta lateral sem deixar nenhum trauma ao indivíduo, organização ou trabalho.
  Em empresas pequenas, pelo contrário, os erros dos profissionais com mau desempenho atingem normalmente de forma forte e rápida o limite do aceitável.
  E, de igual modo, quando chega a altura de os despedir, há algo que torna a situação bastante pessoal. Um despedimento pode parecer uma morte na família. Já para não falar no impacto que terá no trabalho. Mesmo se o colaborador despedido era mais mau do que bom, o seu afastamento pode afectar significativamente as operações, sem falar nas relações com os clientes.
  Mas como se consegue perceber que o Albino com a sua responsabilidade de gerência, mesmo que leal e com algumas provas dadas, mas que não vive a missão e os valores da empresa deve sair?
  Existem apenas quatro tipos de gestores no mundo, classificados pelo seu nível de desempenho - isto é, de conquista de resultados - e pelo modo como demonstram valores importantes como a franqueza e resposta aos clientes.Quando os gestores têm grandes resultados e aceitam os bons valores, é fácil. Devem ser elogiados e recompensados em todas as oportunidades. Gestores com maus resultados mas bons valores merecem outra oportunidade, talvez noutro cargo dentro da organização. O terceiro tipo de gestor, com bons resultados e maus valores, é o tipo que geralmente destrói organizações. Ele cumpre o trabalho mas, regra geral, à custa de outros. Frequentemente, as empresas mantêm estes idiotas durante demasiado tempo, destruindo a moral e a confiança.
  O Albino é o tipo de gestor com o qual é mais fácil lidar. Ele tem um fraco desempenho e valores fracos. Tem uma agenda dupla. Não só estraga projectos importantes como também tira proveitos próprios enquanto faz jogos duplos. É "leal" diz ele. Não parece que seja assim.
  O jogo acabou. Pode sentir falta dos conhecimentos do Albino até encontrar um substituto, mas, quando finalmente tiver coragem de cortar o "cordão", vai pensar porque que é não o fez mais cedo.

  O quarto tipo de gestores, são aqueles que geralmente cumprem objectivos mas à custa dos outros. Estes destroem a moral e a confiança.

  Digamos que o Albino é um misto do tipo três e Quatro.


  Jorge Neves




  


  

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

REFLEXÕES POLÍTICAS - CRIMINALIDADE SEM FRONTEIRAS







  Os cortes forçados nos orçamentos relegam os políticos para uma posição de meros administradores da penúria. Já só lhes resta então reportarem-se aos poderes superiores do progresso económico para rejeitarem as suas responsabilidades pela miséria. Tal atitude mina a base do Estado democrático. Mas os problemas financeiros crónicos são somente mais um dos sintomas do declínio político, entre tantos outros. Depois da soberania monetária e fiscal, está a vacilar mais um pilar do Estado-nação: o monopólio da força armada. É que, tal como os bancos e os grandes grupos, também as multinacionais do crime beneficiam com o desaparecimento desses vínculos legais que refreavam a economia. Na totalidade dos países europeus, as autoridades políticas e judiciais evocam o rapidíssimo crescimento da criminalidade organizada - «O que é bom para o comércio livre também o é para os criminosos», constata com grande lucidez um funcionário da Interpol.
  Já nos finais dos anos 80 as sete maiores nações económicas reuniram um grupo de peritos. Segundo esta comissão, já em 1990 o volume de negócios do mercado da heroína tinha duplicado relativamente à duas décadas atrás, enquanto o comércio da cocaína se viu multiplicado por cinquenta. E quando se sabe vender drogas, é possível instalar-se em qualquer mercado ilegal. Os cigarros que não pagam impostos, as armas, os veículos roubados e a introdução de imigrantes clandestinos estão hoje a ascender ao lugar que o tráfico de droga tem ocupado no pódio das fontes de rendimento da economia clandestina.
  Seja como for neste mundo do comércio ilegal, e tendo em conta o aumento exponencial dos volumes comerciais, a polícia não consegue controlar senão uma fracção do contrabando. Mas estas apreensões não prejudicam muito o comércio clandestino: os investigadores apenas conseguem prender os distribuidores e os transportadores. Os organizadores, respeitáveis homens de negócios, são absolutamente intocáveis. Conhecem-se os nomes das pessoas, mas não as podem ou não querem apanhar. De facto não são acessíveis: nas suas fronteiras, o mais tardar, a colaboração policial internacional fica suspensa.
  Há outra realidade que provoca ainda mais dores de cabeça aos investigadores: tornou-se impossível deita a mão à fortuna dos grupos criminosos. Qualquer que seja a eficácia do trabalho da polícia e da justiça, os lucros acumulados permanecem intocáveis no espaço sem direito do mercado financeiro global. O segredo bancário das zonas de evasão do capital, que a comunidade financeira internacional defende com unhas e dentes, não protege apenas os que se furtam fraudulentamente ao fisco. Não é por acaso que os principais paraísos fiscais se desenvolveram ao longo dos grandes itinerários do tráfico de droga. «O Panamá e as Baamas são conhecidos como centros de branqueamento do dinheiro proveniente do tráfico da cocaína. Hong Kong desempenha o mesmo papel para os lucros realizados graças ao comércio da heroína proveniente do Sudeste Asiático, enquanto que Gilbraltar e Chipre servem de porto de abrigo ao capital dos traficantes de droga do Próximo Oriente e da Turquia», afirma a economista britânica Suzan Strange, resumindo assim a a função das praças offshore na economia clandestina. Dito isto, nenhuma lei contra o branqueamento do dinheiro, por mais rigorosa que seja, pode travar o trabalho de sapa efectuado pelos investidores criminosos contra os os sectores legais. «Hoje em dia, quando se quer lavar dinheiro adquirido de forma criminosa , é possível fazê-lo sem dificuldades quase no mundo inteiro. As consequências são aterradoras . Actualmente, os peritos consideram que a criminalidade organizada é o sector económico que se desenvolve mais rapidamente, com lucros anuais na ordem de biliões de Euros.
  Quanto mais capital os carteis do crime acumulam mais possibilidade têm de corromper e até assumir integralmente o controlo de empresas legais e de certas instâncias do Estado. O fenómeno é tanto mais inquietante quanto o Estado em certos países está fracamente desenvolvido. Em vários países a actividade comercial ilegal e a actividade legal intersectam-se constantemente. Ninguém consegue já dizer quais os elementos do aparelho de Estado  que ainda defendem o direito ou se contentam, a pedido dos criminosos, em conduzir uma guerra contra os seus concorrentes. Veja-se o exemplo da Itália, que apesar das operações  espectaculares , não consegue ganhar a sua batalha contra a máfia. O capital dos antigos patrões da máfia passou, sem fricçõe, para as mãos dos herdeiros desconhecidos que tiveram de modernizar as suas organizações.
  Partindo do seu país de origem, apoiadas pelos seus bancos , as redes criminosas vão- se pouco a pouco infiltrando nos Estados ricos que ainda parecem funcionar de forma correcta.
  A fronteira entre legalidade e clandestinidade na vida dos negócios está cada vez mais esbatida. Desconhecendo quem dirige verdadeiramente as empresas, até grupos e bancos sérios podem ver-se envolvidos em negócios obscuros. Quando uma empresa concorrente controlada por criminosos utiliza métodos ilegais, os colaboradores das empresas regulamentares sente-se tentados a recorrer a  estas técnicas por sua própria conta e risco. As quantias utilizadas para a corrupção não têm limites e também elas fazem com que se esqueçam muitos escrúpulos.
  Em todo o mundo, o Estado e a política encontram-se  assim cada vea mais na defensiva. Mesmo as leis  anti-cartéis, que outrora  foram as defesas da economia de mercado contra os conluios impostos pelos empresários à custa dos consumidores ou dos contribuintes, perdem parte do seu efeito.
  Também a política do ambiente foi posta na gaveta. Na competição a que se entregam os Estados  para recuperarem os postos de trabalho proporcionados pelos grandes grupos, a maior parte dos governos abandonou ou adiou todos os projectos de reforma ecológica.
  A catalogação destes fracassos do Estado face à anarquia do mercado poderia ser prolongada quase ao infinito. Pouco a pouco, no mundo inteiro, os governos vão perdendo a faculdade de intervirem na evolução da sua própria nação. Em todos os planos se vê surgir o erro sistemático da integração mundial: enquanto o fluxo de mercadorias e do capital ficou disponível do mundo inteiro, a regulamentação e a supervisão permaneceram uma questão nacional. A economia está a devorar a política. 
  Porém, contrariamente a uma ideia largamente difundida, a crescente impotência do Estado de forma alguma leva a um emagrecimento geral do aparelho de Estado e ainda menos, ao contrário do que supunha o visionário japonês e antigo director da McKinsey na Ásia, Kenichi Ohmae, ao «fim do Estado-nação». É que o Estado e o seu governo continuam a ser a única instância junto da qual os cidadãos e os eleitores podem reclamar justiça, exigir contas e reivindicar mudanças. A ideia de que a união dos grupos mundiais poderia por si só assumir as funções até agora reservadas ao Estado, como anunciava numa reportagem de manchete a revista norte-americana  Newsweek, é uma ilusão. Nenhum director de um grupo, por mais poderoso que seja, consideraria sequer a hipótese de assumir a responsabilidade por evoluções que se processam fora da sua empresa. Não é para isso que lhes pagam. Os responsáveis dos grandes grupos são os primeiros a exigirem a intervenção do Estado em caso de incêndio. Daí que em muitos locais não se assista ao desmantelamento geral da administração burocrática, mas sim ao seu fortalecimento
  Estará o mundo a dirigir-se para uma colaboração global que terá como objectivo salvar a estabilidade social e ecológica? Serão apenas necessários mais uns quantos empurrões para que a governação global se torne uma realidade? Se só olhássemos para o número de conferências científicas e das publicações sobre este tema, crer-nos-íamos já a dois passos da entrada numa nova era. Mas os resultados obtidos continuam a ser decepcionantes.


  Jorge Neves

domingo, 3 de novembro de 2013

REFLEXÕES POLÍTICAS - O INIMIGO SOMOS NÓS MESMOS




  O modelo de civilização outrora inventado na Europa demonstrou sem dúvida ser de um dinamismo e de uma eficácia sem concorrência. Mas não é capaz de modelar o futuro. «A melhoria sensível do nível de vida» que «a alta da produção industrial» haveria proporcionar a todos nos «países subdesenvolvidos» tinha tinha sido anunciada aos pobres do mundo pelo presidente Harry Truman, em 1949. Porém, de facto não teve lugar.
  É justamente agora - quando milhões e milhões de pessoas unidas pelo mundo das imagens procuram, de Bogotá a  Jacarta, atingir o modelo ocidental - que os vendedores dessa promessa de desenvolvimento rescindem o contrato. Mesmo nos seus próprios países, nos Estados Unidos e na Europa, são incapazes de manter a sua promessa e não conseguem travar uma diferenciação social que não cessa de aumentar. Nestas condições, quem se preocupa ainda com a conciliação do crescimento e do ambiente ou com a repartição das riquezas de forma equitativa no Terceiro Mundo? O dogma autoritário do crescimento surge cada vez mais como a arma de uma época já passada: fazia parte do arsenal da guerra fria. Segundo esta lógica, hoje parece só servir como peça de museu.
  Salve-se quem puder! - eis a nova palavra de ordem. Mas... quem poderá? É que a vitória do capitalismo não assinalou apenas esse «fim da história» que o filósofo norte-americano Francis Fukuyama proclamava em 1989 - pôs também fim a esse projecto a que, com tanta temeridade, se tinha dado o nome de «modernidade». Estamos no começo de uma mudança de época de dimensões mundiais: com toda a evidência, já não são a expansão e a prosperidade, mas o declínio, a destruição ecológica e a degenerescência cultural que a caracterizam a vida quotidiana da maior parte da humanidade.
  Elites mundiais apontam para a sociedade dos dois décimos, em particular nus Estados até agora prósperos. À escala mundial, há já muito tempo que o desequilíbrio se instaurou.
  Os dados são conhecidos, mas as forças da globalização, uma vez libertadas, fá-los-ão surgir sob uma nova luz: Um quinto dos Estados do planeta (os mais ricos, evidentemente) produzem cerca de 85% do produto mundial bruto, os seus cidadãos efectuam 84% das transacções mundiais e possuem 86% de toda a poupança interna. Desde 1970, a diferença entre o quinto país mais rico e o mais pobre mais do que duplicou - outro testemunho do fracasso de uma politica de ajuda ao desenvolvimento que prometia equidade. E este fracasso está bem expresso nos números e nas desigualdades que existem actualmente.
  O modelo global de consumo de recursos não foi alterado depois da espectacular conferência do Rio de Janeiro, em 1992, uma manifestação organizada pela ONU e consagrada ao ambiente e ao desenvolvimento. Os membros afortunados do clube dos dois décimos guardaram para si o privilégio de 85% da utilização mundial da madeira, 75% do tratamento dos metais e 70% da energia. As consequências  são tão banais quanto brutais: os habitantes do Globo jamais poderão conhecer em conjunto tal nível de prosperidade, com as devastadoras consequências que este tem sobre a natureza. É a terra a impor os seus limites à humanidade. 
  A difusão mundial das centrais eléctricas e dos motores de combustão já perturbou profundamente o equilíbrio energético do nosso ecossistema. As declarações de intenções da cimeira do Rio soam hoje como cançonetas de uma época perdida na noite dos tempos. Nos subúrbios da mais bela metrópole do planeta, a comunidade mundial pronunciou-se nos seus discursos a favor de  um «desenvolvimento durável», de uma evolução económica que não deixasse como herança às gerações futuras um agravamento da situação do ambiente e dos recursos naturais. Daqui em diante, era necessário, pelo menos nos estados industrializados, reduzir as emissões de dióxido de carbono para os níveis de 1990.
  Mas estas promessas feitas no papel não valem mais do que a tinta com que foram escritas. O mais provável é que o consumo mundial de energia duplique até ao ano 2020. Os gases responsáveis pelo efeito de estufa aumentarão entre 45 e 90%.
  Já não é possível parar a transformação do clima, apenas atenuá-la, e ela provocará um número monstruoso de vítimas. Para todos nós, o aquecimento global e as suas consequências, como por exemplo as tempestades e as inundações, são já uma realidade.
  Não há dúvidas de que já não se poderá impedir uma subida sensível do nível dos oceanos. A era das cidades, ainda à pouco iniciada, poderá assim conhecer um fim abrupto mesmo antes de 2050. Em dez aglomerações com mais de meio milhão de habitantes, quatro encontram-se nas proximidades do litoral - e três quintos das megametrópoles estão incluídas nesta categoria. A existência de Bombaim, Banguecoque, Istambul, e Nova Iorque está realmente ameaçada, e serão muitos raros os monstros urbanos que, para não molharem os pés, poderão oferecer a si mesmos onerosos diques, como acontece na Holanda.
  Também a China deverá temer as tempestades neste século. Xangai, Hong Kong e dezenas de outras cidades com vários milhões de habitantes estão perto do mar. Mas os herdeiros de Mao pensam acima de tudo apenas neste século, tirando as devidas lições e estão a copiar, com licença ou sem ela, as conquistas do Ocidente. A grande opção já está feita; a orientação fundamental foi decidida: este povo com os seus mil milhões de almas, está a preparar-se para a longa marcha para a sociedade automóvel. Um único cálculo pragmático poderá estar na origem desta decisão: mais vale um aquecimento do clima mundial do que um sobreaquecimento do ambiente no país. Um veículo próprio é tão tranquilizante como uma dose de ópio.
  «Nos dias de hoje, andar de bicicleta na China é mal visto, é a própria expressão do subdesenvolvimento».Actualmente deslocam-se nas estradas chinesas apenas apenas um décimo do parque automóvel Alemão. Mas este cenário está a mudar. Com cinquenta milhões de carros novos todos os anos, o conjunto do mercado asiático será brevemente tão grande quanto o da Europa e da América do Norte reunidos. A América Latina e os antigos Estados do Bloco de Leste têm igualmente taxas de crescimento espantosas; no Brasil, os registos de novos veículos quase triplicaram nos anos noventa e seguintes. O fascínio exercido pela ideia de possuir veículo próprio, que está a desvanecer-se em alguns países, encontra-se ainda intacta nesses novos mercados emergentes. O automóvel, longe de ser um simples meio de transporte é antes de mais um símbolo de ascensão Social uma prova de riqueza e do poder. O sinal de uma pretensa liberdade individual. 
  No ano de 2020, mil milhões de veículos, duas vezes mais do que hoje, levarão sem dúvida ao enfarte mundial do tráfego rodoviário. E depois? Todos os esforços envidados noutros países ou noutras regiões para pelo menos , se reduzir o perigo do aquecimento do clima economizando energia e limitando-se o tráfego automóvel, foram assim reduzidos a quase nada.
  A industrialização dos países emergentes desenrola-se hoje num clima de angustiante ignorância ecológica. As cidades da China vomitam uma gigantesca nuvem tóxica que se estende por mais de dois mil quilómetros por cima do oceano Pacífico.
  Há cerca de um ano li um artigo do arquitecto britânico John Seargant no qual ele relata da seguinte maneira uma viagem que fez ao Extremo Oriente, resumindo assim as suas impressões: « vi o futuro de uma grande parte da zona do Pacífico e estou mergulhado num pavor mortal. Um quarto da população do Globo está a mudar de nível d vida, destruindo assim uma parte importante do planeta.»
  A China está em muito boa companhia, como todos sabemos. E nós também fazemos parte dos cúmplices. A maior parte dos habitantes dos países até agora qualificados de prósperos julga poder viver sem dificuldades com o aquecimento global. Mas também o problema ecológico favorece essa sociedade dos dois décimos que está em vias de se estabelecer. De futuro, serão poucos os indivíduos que ainda poderão oferecer-se produtos naturais caros e raros. Mas os que deles poderão dispor tirarão maior proveitos disso.
  É que se a formação de uma larga frente política desejosa de combater o aquecimento global do planeta demora tanto tempo, é porque vários milhões de pessoas consideram ainda que poderão beneficiar da alteração climática. Dito isto, estaríamos errados se pensássemos que todos os esforços são vãos e que o Apocalipse é inelutável. Os que chegam a tais conclusões não fazem mais do que incitar os outros a esquivarem-se aos problemas e a justificarem a sua própria inactividade. De facto, tornou-se muito confortável esperar pelo fim do mundo.
  Mas esse desaparecimento redentor que resolveria todos os conflitos não terá lugar. A humanidade sobreviverá, será obrigada a sobreviver, e por muito tempo ainda. A única questão reside em saber como - e qual a percentagem da humanidade que estará mais perto da prosperidade ou da miséria absoluta, inclusivamente no seio do que até agora se designava por mundo industrializado . Não há quaisquer dúvidas de que o «destino ecológico da humanidade será jogado na Ásia», sublinha o director da Greenpeace Internacional. Mas os primeiros responsáveis pela renovação ecológica são os mesmos que criam o paraíso das mercadorias e se agarram às suas imagens e ídolos.
  O abandono do modelo tradicional de desenvolvimento económico - quaisquer que sejas os sacrifícios que implique - não será obrigatoriamente «uma sinistra marcha marcha para a miséria»: pelo contrário, poderá levar a «novas formas de bem-estar, afirma Ernst Ulrich, presidente do Instituto de Wuppertal. O director deste laboratório do futuro, de cuja seriedade ninguém duvida, apresentou pormenorizadamente  a sua ideia já em 1995.
  Enquanto as regiões centrais da Europa anunciam a motorização completa, no momento em  que todos os lares estão equipados com televisores e todas outras tecnologias e em particular as de informação, alguns indivíduos, sobretudo os citadinos, rompem abertamente com os ícones  da modernidade. Mas também aqui a sociedade se polariza: quando se passam horas à procura de um lugar para arrumar o carro, já pouco resta do prazer de conduzir. Assim se dissipa o ideal de uma sociedade automóvel igualitária. Mesmo perante o grande engarrafamento, os homens não são iguais, longe disso. Outrora, era a posse de um televisor e de um automóvel que conferia um estatuto; hoje o novo luxo é não ter necessidade de veículo e não depender da televisão. Quando se leva uma vida excitante, não há dificuldade em se renunciar aobrilho virtual da televisão - e deixa de se ouvir falar em tittyainmment.
  Estes pequenos refúgios requintados não ocultam a mutação social iminente há tanto tempo descritas por certos visionários, desde Dennis Meadows até ao vice- presidente norte-americano Al Gore. No início de Verão de 1989, os problemas do ambiente e a catástrofe climática estavam, pela primeira vez, na ordem do dia na cimeira económica do G7, que reúne as sete nações mais ricas do mundo. Julgou-se que essa reunião anunciava uma mudança na forma de pensar. «Os anos 90 de seguintes serão décadas críticas» Os combates decisivos serão nos dias de hoje ganhos ou perdidos. É uma ameaça actual que não tem rosto. O inimigo da degradação ambiental somos nós mesmos!


  Jorge Neves

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

REFLEXÕES POLÍTICAS - OS MILHÕES DE VÍTIMAS DO MERCADO MUNDIAL





  Mudar a localização de stocks, simplificar, extinguir,despedir - a economia de alto rendimento e de alta tecnologia devora a prosperidade e demite os seus consumidores.
  Anuncia-se um terramoto económico e social, cujas dimensões são ainda desconhecidas. Quer se trate da construção de automóveis ou da de computadores, do ramo químico ou electrónico, das telecomunicações ou dos serviços postais, do comércio retalhista ou da economia financeira, onde quer que os produtos ou serviços sejam transaccionados livremente através de todas as fronteiras, todos os que estão empregados serão arrastados pelo turbilhão da desvalorização e racionalização, aparentemente imparável. 
  Só na indústria alemã anualmente perdem-se milhares de postos de trabalho. E a situação da Alemanha é, em termos internacionais comparativamente boa. Nos outros países da OCDE, da organização das nações industrializadas e ricas e dos países vizinhos pobres, o número dos empregados bem remunerados diminuiu com maior rapidez. Desde a década de noventa milhões de pessoas procuram trabalho em vão nos estados da OCDE. Dos EUA à Austrália, da Grã-Bretanha ao Japão, a prosperidade de massas das nações líderes da economia mundial desaparece velozmente. 
  Até a actividade cuja função é descrever a decadência e para qual as más notícias significam sempre boas notícias começa a ressentir-se da mudança dos tempos: Jornalistas e documentalistas, investigadores e chefes de redacção serão sacrificados ao universo do tittytainment que se avizinha. Cada vez menos pessoas dos media produzem cada vez mais histórias, cada vez mais depressa; jornalistas da nova geração jamais poderão sonhar com uma colocação sólida e com um chorudo orçamento de despesas até aqui habituais nos «navios-almirantes» da imprensa e nas estações de televisão estatais e institucionais. O que antigamente era padrão natural está actualmente reservado e mesmo assim enfraquecido, aos trabalhadores de longa data e a algumas estrelas. Os novos profissionais têm de se contentar, porém, com contratos colectivos inseguros e miseráveis honorários calculados à linha. Até mesmo editores de livros e nomes conceituados da televisão e do cinema recorrem ao trabalho barato. Editoras sólidas hesitam em relação a novas colocações, pois o futuro do ramo é incerto devido ao aumento das matérias primas e a diminuição do interesse por parte dos leitores.
  Violentas rupturas relacionadas com o emprego ocorrem em grande escala, igualmente em ramos que, até há pouco, prometiam aos seus trabalhadores colocações vitalícias, independentemente dos altos e baixos da conjuntura mundial. A aparatosa diminuição do emprego ameaça não só os bancos e as companhias de seguros, como também as empresas de telecomunicações, as companhias de aviação e a função pública.
  A União Europeia com a Alemanha à cabeça oferecem aos lobos esfaimados da competição global uma suculenta presa.
  Não se vislumbra o fim da crise do emprego. Muito pelo contrário: após avaliação dos levantamentos por parte de várias instituições mundiais, as mesmas chegaram à conclusão que nos próximos anos mais de quinze milhões de trabalhadores irão temer pelos seus empregos a tempo inteiro.Estes valores duplicaram a cada década.
  Actualmente a zona Euro tem uma percentagem de desempregados de 12%, Portugal 18% e em Espanha são cinco milhões de desempregados que corresponde a 23%.
  Com efeito os ordenados no novo mundo do trabalho, que obrigará milhões de trabalhadores de ocasião a saltar de um trabalho temporário para outro, serão significativamente inferiores aos do sistema de tarifas salariais em vigor até aos dias de hoje. A sociedade dos dois décimos está cada vez mais perto.
  As consequências da mudança são sentidas por cada um, apesar do próprio emprego parecer ainda seguro. O medo do futuro e a insegurança grassam, a textura social degrada-se. Contudo, a maioria dos responsáveis recusa-se a aceitar a responsabilidade. Governos e direcções de grupos industriais e financeiros sentem-se impotentes e reclamam a sua inocência. Explicam aos respectivos eleitores e trabalhadores que a até agora inimaginável redução maciça de colocações ou seja da criação de novos empregos, seria consequência de uma inevitável modificação de estruturas. Já na década de noventa e seguinte o «neoliberal» alto comissário Martin Bangenam da União Europeia, opinava que com a manutenção de salários elevados, a produção em massa na Europa Ocidental não terá qualquer futuro. Juntamente com a China e com o Vietename há concorrentes à espera cujos custos salariais são os mais baixos possível. O jornal de gestores Wall Street Jounal constata: «A concorrência numa economia de trabalho global brutal cria um mercado de trabalho global. Já não há empregos seguros.»
  Os beneficiários da economia sem fronteiras gostam de explicar a crise como se fosse uma espécie de processo natural. «A competição na aldeia global é como uma grande cheia: ninguém lhe consegue escapar», profetizou já em 1993 o então director da Daimler-Benz. Henrich Von Pierer timoneiro do grupo Siemens, mais tarde repete a mesma mensagem com as mesmas palavras.
  O vento da competição transformou-se numa tempestade e o verdadeiro furacão está para chegar.
A integração da economia para além de todas as fronteiras não é, de forma alguma, determinada por uma lei natural ou por um progresso técnico linear que irrompe e ao qual não há qualquer alternativa. Ela é sim o resultado duma política governamental conduzida conscientemente desde sobretudo há duas décadas pelas nações ocidentais industrializadas, à qual se dá continuidade até aos dias de hoje.
  Inevitavelmente caminhamos para a sociedade dos dois décimos, ou seja 20% de pessoas incluídas par 80% de pessoas excluídas.

  ISTO SÓ PODE ACABAR MAL!


  Jorge Neves

  


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

REFLEXÕES POLÍTICAS - ESTALINE QUERIA A OMNIPOTÊNCIA E O RATO MICKEY CONSEGUIU A OMNIPRESENÇA








   Mas porque terá sido justamente o ideal de vida Americano o que prevaleceu?
  Porque terá Disney passado por cima de todo o resto?
  A dimensão nacional do mercado norte-americano, a posição de poderio geopolítico  dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, o seu poder nas batalhas de propaganda da guerra fria terão certamente desempenhado um papel central, embora não o único papel decisivo. Por outras palavras: Estaline queria a omnipotência e o Rato Mickey conseguiu a omnipresença.
  O magnata dos média Michael Eisner, presidente do conselho de administração e presidente da Walt Disney Company, tem a sua própria interpretação: «O entertainment norte-americano veicula uma grande quantidade de possibilidades individuais, de escolhas individuais e de expressão individual. É isso que as pessoas de todo o mundo querem.» E acrescenta este representante de Hollywood, despreocupadamente: «A indústria norte-americana do entretenimento, resultado de uma liberdade criativa sem limites, produz uma originalidade que não se encontra em mais nenhum local do mundo. Uma personalidade que fortemente ataca este sistema chama-se Benjamim R. Barber e dirige o Walt Whitman Center University, em New Jersey. Foi ele quem inventou a fórmula, hoje clássica, « Jihad contra McWorld». Para ele, a tese da diversidade desenvolvida por Eisner é uma «mentira pura e simples» Esse mito mistura dois pontos decisivos: o tipo de escolha e a pretensa independência dos desejos. Em numerosas cidades norte-americanas e europeias pode escolher-se, por exemplo, entre dezenas de modelos de automóveis, mas não se pode optar entre vários meios de transportes públicos. E como é possível afirmar com seriedade que o mercado dá às pessoas unicamente o que elas desejam, quando se concede à indústria publicitária um orçamento de mais de um bilião de dólares? Não será a cadeia de televisão MTV apenas um canal publicitário que assegura ao longo de vinte e quatro horas por dia a promoção da indústria musical?
 Para Barber, o fulgurante sucesso da «colonização da cultura mundial pela Disney», baseia-se num fenómeno tão antigo quanto a civilização: a competição entre o pesado e o leve, o lento e o rápido, o complexo e o simples. Os primeiros destes pares de termos estão sempre associados a prestações culturais admiradas, correspondendo os segundos «à nossa indiferença, ao nosso desleixo, à nossa preguiça. A Disney, o McDonald's e a MTV, como exemplo, seduzem-nos a todos pelo lado fácil, rápido e simples».
  Devam-se as causas do triunfo de Hollywood à avaliação de Eisner ou à de Barber, as consequências concretas desse êxito são omnipresentes. A cada esquina, encontramo-nos diante de Cindy Crawford ou de Pocahontas, como em outras áreas esbarramos numa garrafa de Coca Cola ou num logótipo da Nokia, da mesma forma que na outrora União Soviética havia uma estátua de Lenine de cem em cem metros.

  O grande desejo do grito uniforme

  Mas quanto mais se internacionalizou o mercado das imagens, mais limitado ele se tornou. Em média, a indústria cinematográfica norte-americana consagra a cada file de ficção 125 milhões de dólares, quantia que os produtores europeus ou indianos são absolutamente incapazes de reunir. Seja no domínio da técnica seja no domínio dos cenários, estes dispendiosos filmes fixam constantemente novas normas, normas essas que os seus concorrentes raramente satisfazem. Nestas condições, a atracção exercida por Hollywood e por Nova Iorque cresce constantemente.
  A diversidade que nos prometem para o futuro, a de por exemplo os quinhentos canais de televisão a que todos os lares poderão ter acesso, não é igualmente mais do que uma aparência. Um pequeno número de líderes do mercado transformarão e reciclarão a sua mercadoria num grande número de locais de retransmissão, em função das expectativas do seu grupo-alvo. Paralelamente, hoje em dia e de futuro, a caça às audiências favorece e favorecerá as fusões entre as empresas dos mídia e do entretenimento. Os direitos de transmissão, das manifestações desportivas importantes, por exemplo, já não podem ser financiadas senão por enormes receitas publicitárias; ora, estas não podem ser obtidas a não ser por intermédio de grandes cadeias de radiodifusão ou de agências internacionais de venda de espaço publicitário. E os únicos que têm interesse em emitir spots publicitários e em particular as emissões são os fabricantes presentes em toda a zona de transmissão, ou seja, essencialmente, grupos multinacionais.
  Finalmente, as agências publicitárias recorrem a cenários inspirados numa pátria onírica isto é numa pátria de sonhos comum a todos os seus clientes. O grande público europeu já está tão seduzido por Nova Iorque e pelo Oeste selvagem que na noite em que a cadeia de televisão RTL  emitiu a final de futebol da Liga dos Campeões, já no longínquo Maio de 1996, mais de metade dos seus spots publicitários remetiam para clichés provenientes desse mundo longínquo e aparentemente familiar. Hoje em dia, para acompanhar e cerveja Beck's, o sol vermelho já não mergulha no mar em Capri, mas atrás da Golden Gate; os pneus Continental já não chiam sobre o asfalto alemão de Nuburgring, mas nas ravinas sobre as quais se debruçam os arranha-céus de Manhattan etc, etc, etc...
  Também na Europa, o desporto, mercadoria cultural, está cada vez mais a transformar-se numa mercadoria para uma sociedade do lazer obnubilada, ou seja deslumbrada pelo desing e que aplaude entusiasticamente as embalagens enganadoras.
 Na Fifa pede-se que os intervalos dos jogos de futebol sejam mais longos, a fim de dar mais espaço à publicidade, tal como no futebol norte-americano. O Bayern de Munique equipa do Sul da Alemanha, vende agora mais camisolas em Hamburgo, no Norte do país do que os dois clubes de Hamburgo que participam no campeonato nacional. Como também são cada vez mais difíceis as controvérsias surgirem das comparações tradicionais entre as cidades,  «há que criá-las artificialmente, opondo os jogadores aos jogadores, os jogadores ao treinador, e o treinador ao presidente». 
  Como uma charrua a dar a volta ao mundo, a procura destes produtos aos quais se assegura uma publicidade global e desejados por milhões e milhões de indivíduos veio revolucionar o comércio tradicional de todas as cidades do mundo.
  Hoje em dia, conseguiu-se «transformar a sede em necessidade de Coca-Cola», para utilizar a maliciosa expressão outrora utilizada pelo pensador Ivan Illich. As metrópoles são hoje dominadas pelos mesmos logótipos por todos conhecidos, A reflexão e as mercadorias acumulam-se nos filmes propostos pelas salas de cinema e nos gostos musicais em vigor: todos se uniformizam, a um ritmo frequentemente destrutivo para os antigos produtores nacionais. De Lisboa a Praga, passando pelo Marais, velho bairro parisiense, os cenários são cada vez mais semelhantes: lojas uniformes invadem os centros das cidades outrora específicos e geradores de identidade. Cadeias internacionais de lojas apoderam-se dos melhores locais: restaurantes Fast- Food estandardizados  atraentes lojas de pronto-a-vestir ou cosméticos inodoros abrem aí por todo o lado..etc...etc...etc.
  Numa palavra: todo está em toda a parte.


  Jorge Neves

terça-feira, 8 de outubro de 2013

REFLEXÕES POLÍTICAS - A GLOBALIZAÇÃO DA INJUSTIÇA. OS PERIGOSOS POLÍCIAS DO MUNDO







  As propostas e as ideias para que se caminhe para uma melhor distribuição da riqueza, todas elas assentam numa condição comum que ainda hoje não é uma realidade: a existência de governos capazes de agir e de enfrentar, com tais reformas, a nova Internacional do dinheiro sem por isso sofrerem a sanção da fuga de capitais. A única nação que pode hoje provocar uma mudança de rumo, contando apenas com as suas próprias forças, é a superpotência económica e militar dos Estados Unidos. Mas, no momento actual, as hipóteses de se ver os norte-americanos lançar uma iniciativa para refrear as forças do mercado em proveito de todos os povos são praticamente nulas. Pelo contrário, o mais provável é que os futuros governos dos Estados Unidos apontem para soluções (aparentes) de tipo proteccionista e procurem obter para o seu país vantagens comerciais à custa das outras nações.
  Aliás, tal não estaria em contradição com a tradição norte-americana. Aquela América cheia de abnegação, que ajuda o resto do mundo a resolver os seus problemas, nunca existiu. Os governos norte-americanos, qualquer que seja a sua cor, conformam-se quase exclusivamente, e desde sempre, ao que consideram ser o seu interesse nacional. Enquanto foi necessário combater o «Império de Mal», a Leste, era preciso uma Europa Ocidental estável e próspera, para se opor ao comunismo o suave rosto do capitalismo. Neste momento, porém,  Washington já não necessita da Europa para desempenhar esse papel. Se as empresas instaladas nos Estados Unidos puderem retirar vantagens de uma política que afaste os produtos e as prestações de serviços estrangeiros do mercado norte-americano ou de outros mercados importantes, certamente não hesitarão em dar o seu apoio político às forças do mercado. Recordemos durante a administração Clinton já nos deu um ante gosto dos futuros conflitos transatlânticos  durante a crise do dólar de 1995. Recorde-se também que já em Agosto de 1996, segui-se-lhe outro exemplo. A pretexto da luta contra o terrorismo, o presidente do Estados Unidos assinou uma lei que pretende banir do mercado norte-americano todas as empresas europeias e japonesas que têm negócios com o Líbano e o Irão, nomeadamente nos sectores petrolífero e da construção. Os Estados membros da União Europeia viram-se obrigados a agitar a ameaça de represálias. É exactamente porque o Estado social norte-americano está arruinado e já não consegue proteger os seus cidadãos contra as crises provocadas pelo mercado mundial que a grande reacção contra a mundialização há-de certamente vir do país que propagou no mundo inteiro o dogma da submissão total ao mercado. O gigante norte-americano não é somente imprevisível no seu papel de polícia do mundo. Deixou igualmente de manter o seu papel de guardião do comércio livre mundial.


  JORGE NEVES

domingo, 6 de outubro de 2013

REFLEXÕES POLÍTICAS - A GLOBALIZAÇÃO DA INJUSTIÇA






  Só podemos combater eficazmente a tecnocracia
  internacional se a desafiarmos no seu terreno de eleição,
  o das ciências económica, e se opusermos ao pensamento
  mutilado a que ela recorre um saber que respeite
  mais as pessoas e as realidades que estas enfrentam.

                                                             PIERRE BOURDIEU 


  Qual a dose de mercado que a democracia pode suportar? Ainda há poucos anos, esta questão parecia ociosa. Contudo, era nas sociedades democráticas do Ocidente que a economia de mercado tinha permitido que um número cada vez maior de cidadãos vivesse ao abrigo das preocupações materiais. O mercado mais a democracia: era esta a fórmula dos vencedores, a fórmula que, no final de contas, tinha posto de joelhos as ditaduras de partido único do bloco de leste.
  Só que o fim dos regimes comunistas não soou como o fim da história mas, pelo contrário, como a fantástica aceleração das mutações sociais. Deste então cerca de mil milhões de pessoas entraram para a esfera económica do mercado mundial, tendo sido nesse momento que a integração das economias nacionais começou verdadeiramente. A amarga experiência já sentida pelos fundadores dos Estados prósperos do pós-guerra não levanta hoje a mínima dúvida: a economia de mercado e a democracia nada têm de dois irmãos de sangue inseparáveis que alimentam em conjunto a prosperidade de todos. Pelo contrário, as duas figuras ideológicas centrais das velhas nações industrializadas ocidentais vivem numa contradição permanente.
  Uma sociedade de constituição democrática só é estável quando os seus eleitores sentem e sabem que o que conta são os direitos e os interesses de todos, e não apenas os dos indivíduos que gozam de supremacia económica. Os políticos democráticos sabem pois exercer pressão para obterem uma compensação social e restringirem a liberdade do indivíduo em proveito do bem comum. Simultaneamente, porém, a economia de mercado, para poder prosperar, tem absoluta necessidade da economia empresarial. Só a perspectiva do lucro individual liberta as forças que, através das inovações e dos investimentos, criam uma nova riqueza. Portanto, desde sempre, empresários e accionistas procuram impor o direito do mais forte (ou seja, do capital e do seu poder).A grande realização da política ocidental do pós-guerra foi a tentativa de encontrar entre estes dois pólos o equilíbrio adequado, tentativa essa de inegável êxito. É exactamente isto que é designado pelos termos de «economia social de mercado», essa ideia que assegurou durante cinco décadas consecutivas a estabilidade e a paz aos alemães ocidentais  e a todo o resto da Europa.
  Mas este equilíbrio está a ponto de se perder. Tendo o Estado cada vez menos possibilidades de intervir no mercado mundial, a balança, pouco a pouco, vai-se inclinando para o lado dos poderosos. Dando mostras de uma espantosa ignorância, os engenheiros da nova economia global ignoram completamente as descobertas daqueles que contribuíram para a construção do seu sucesso. Baixas permanentes dos salários, prolongamento dos horários de trabalho, cortes nas subvenções sociais e até a renúncia completa de qualquer sistema social: eis a «cura de emagrecimento» dos povos antes de os fazer enfrentar a competição mundial. Para a maior parte dos chefes dos grandes grupos e para os políticos liberais da economia, qualquer resistência a este programa não passa de uma tentativa inútil para defender um statu quo insustentável. A mundialização é irresistível, afirmam, e, sob este aspecto, só é comparável à revolução industrial. Quem quer que se lhe oponha acabará por desaparecer, mais cedo ou mais tarde, como os partidários do luddismo, que destruíam as máquinas na Inglaterra do século XIX.

EM FRENTE PARA OS ANOS 30 DO SÉCULO XX

  A maior catástrofe possível seria que os defensores da mundialização tivessem razão ao estabelecerem este paralelo. A entrada na era industrial foi um dos períodos mais terríveis da história europeia. Os antigos senhores feudais associaram-se aos novos capitalistas. Governando pela brutalidade, eliminaram a antiga escala de valores, as regras corporativas dos artesãos e os direitos consuetudinários da população rural, que garantiam uma sobrevivência certa, se bem que pobre. Ao agirem assim fizeram mais do que mergulhar milhões de pessoas no mais absoluto desespero. Provocaram igualmente nas nas suas próprias nações contra-movimentos incontroláveis cujas forças destrutivas levaram num primeiro momento à desestruturação do sistema de comércio livre internacional, após o que desencadearam duas guerras mundiais e a tomada do poder pelos comunistas na parte oriental da Europa.
  Na sua  brilhante obra sobre a «grande transformação», publicada em 1944, Karl Polanyi, especialista de história social, mostrou pormenorizadamente a forma como a aplicação das leis do mercado à mão-de-obra humana - e com ela a profundíssima alteração das antigas estruturas sociais - obrigou os Estados Unidos europeus a mergulharem cada vez mais profundamente num sistema de medidas defensivas irracionais. Segundo Polanyi, a criação de mercados livres « de forma alguma resultou na eliminação dos regulamentos e das intervenções mas, pelo contrário, na sua gigantesca expansão»! Quanto mais a economia de mercado desregulamentada, com as suas crises conjunturais cíclica, desencadeava falências e revoltas dos que tinham fome, mais os governos se viam obrigados a limitar o livre jogo das forças. Num primeiro momento, apenas reprimiam os diversos movimentos de protesto dos operários. Depois, para protegerem os mercados, intervieram contra a concorrência excessiva, sobretudo a dos países estrangeiros, que, por seu lado, reagiram imediatamente recorrendo aos mesmos métodos. Desde o início do século, e especialmente nos anos 20 e 30 do século XX, os governos estiveram mais ocupados a organizarem o proteccionismo do que a defenderam o comércio livre. E quando as guerras comerciais e monetárias degeneraram, a economia mundial, já altamente integrada nessa época, foi precipitada na grande depressão do início dos anos 30.
 É certo que é impossível transpor esquematicamente para a tecnologia do final do século XX o modelo de reacção às forças do mercado descrito por Planyi. Mas nem por isso a sua conclusão é menos certa. Polanyi qualificou de «perigosa utopia» a ideia defendida pelos partidários da economia liberal do século XIX e XX: a de sociedades modeladas por um sistema de mercado internacional que se regularia a si mesmo. Para Polanyi, esta ideia transporta em si mesma o seu próprio fracasso: a política da não-intervenção destrói permanentemente a estabilidade social.
  Todos aqueles que defendem o desmantelamento do Estado-Social e a desregulamentação sem condições defendem ainda hoje essa utopia de um mercado auto-regulado. Os pretensos modernizadores que, desprezando a história, se entregam à lei da oferta e da procura, praticam um «integrismo do mercado», «uma forma de analfabetismo democrático», afirmara já o sociólogo Ulrich Beck. Os direitos fundamentais dos domínios social e económico permitiram que o capitalismo fosse domado. Estes direitos não eram um generoso benefício de que se possa desistir quando a situação se torna difícil. Pelo contrário, eram  a resposta aos conflitos sociais e ao fracasso da democracia na Europa dos anos 20 e por aí fora. Beck afirma: Apenas os indivíduos que têm habitação, um emprego estável e, consequentemente, um futuro material, são cidadãos de se apropriar da democracia e de a tornar viva. A verdade é simples: sem segurança material não há liberdade política. Isto é, não há democracia. E a falta de segurança material é uma ameaça que pesa sobre todos, exercida por regimes totalitários, de hoje e de ontem.
  É precisamente por esta razão que a antinomia entre o mercado e a democracia reencontrou a sua angustiante explosividade nos anos 90 e seguintes. Todos os que olham para as coisas de frente compreenderam-no há já muito tempo. A persistente vaga de xenofobia na população europeia e norte-americana é um sinal infalível que a política integrou. Em quase todos os países da Europa e nos Estados Unidos, leis crescentemente rigorosas sobre a imigração e métodos de vigilância crescentemente severos constituem atentados aos direitos do homem sempre que se trate de refugiados e de migrantes.
  O patamar da exclusão que se irá seguir dirá respeito aos grupos economicamente desfavorecidos da sociedade: beneficiários da assistência social, desempregados, deficientes e jovens sem formação estão já a sentir na pele o facto de os que (ainda) ganham a sua vida estarem a cortar, pouco a pouco, os ramos da solidariedade. Temendo que eles mesmos caiam pelos degraus da escala social, pacíficos cidadãos das classes médias transformam-se em chauvinistas da prosperidade e recusam-se e terem de pagar pelos perdedores da roleta do mercado mundial. Os políticos que representam esta facção da nova direita que varre a Europa, que por exemplo, na Alemanha estão estão reunidos no FDP partido democrático liberal, que até há pouco tempo coligava com a CDU de Angela Merkel e em Portugal estão no actual PSD e também CDS - estão a provocar a inversão do ressentimento popular: neste momento, já não atacam os grandes beneficiários, mas hipotéticos parasitas sociais. São os que clamam que a assistência à terceira idade, na doença,e em caso de perda do emprego deve ser deixada, à vontade individual. Puros e fanáticos defensores do darwinismo. Nos Estados Unidos e na Europa-onde quase metade dos cidadãos nomeadamente das classes populares já nem sequer vai votar-, os novos darwinistas sociais conquistaram mesmo a maioria parlamentar. E empreenderam a divisão das suas nações de acordo com o modelo do tipo brasileiro. 
  As próximas vítimas desta inelutável ideologia serão as mulheres. Na Alemanha, os democratas cristãos que têm a seu cargo os problemas das famílias já decidiram infligir penalizações salariais ás mulheres grávidas com baixa por atestado médico, uma medida que deixa adivinhar o que espera a totalidade das assalariadas. Já hoje as mães que educam sozinhas os seus filhos e que dependem da assistência social travam uma luta quotidiana pela existência.
  Já o Financial Times, desenvolveu um modelo de argumentação que permite justificar a exclusão das mulheres. Segundo este diário, o maior problema da crescente desigualdade é, antes de mais, o dos homens jovens sem qualificação que, na ausência de possibilidades de trabalharem, se deixam arrastar para a violência e a criminalidade - pelo menos é esta a análise categórica de um comentador do sexo masculino.Ora estes homens jovens sofrem sobretudo com a concorrência das mulheres activas, que já ocupam cerca de dois terços dos postos de trabalho não qualificado do país (Inglaterra). Consequentemente, e de acordo com o jornalista, vale mais «limitar o acesso ao mercado de trabalho às mulheres, porque estas não se tornam tão rapidamente criminosas e perigosas». A futura divisa de política económica deveria ser pois: «More Jobs For The Boys».
  As antigas nações prósperas estão a abastecer-se de dinamite; dentro de pouco tempo, os diferentes Estados e os seus governos já não conseguirão desactivar este explosivo. Se não se conseguir mudar de rumo a tempo, assistir-se-é indelevelmente a uma reacção social de defesa semelhante à descrita por Planyi. E é possível prever que também ela terá características proteccionistas e nacionalistas. 
  Há muito tempo que, nos grupos industriais e nos meios económicos os espíritos mais lúcidos compreenderam o perigo. Muitas mentes também lúcidas constatam, com receio, que a «mundialização imprimiu às mutações um ritmo que um número crescente de pessoas que já não consegue assimilar. Como podemos nós canalizar este processo de forma a que os mercados permaneçam abertos e as transformações, apesar de tudo controláveis«? Já o director do gigante das ferramentas a ABB, com mais de mil filiais em cinquenta países, lançou igualmente a seguinte advertência: «Se as empresas não tomarem consciência dos desafios lançados pela pobreza e pelo desemprego, as tensões entre os mais favorecidos e os pobres terão como resultado uma alta considerável da violência e do terrorismo. Os custos humanos da mundialização  estão a atingir um nível que submete toda a estrutura social das democracias a uma prova de resistência sem precedentes, já dizia, Klaus Schwab fundador da WEFD o «ambiente de confusão e de angústia» que está a propagar-se prenuncia, segundo Schwab, uma reacção violenta, súbita e incontrolável que há que levar muito a sério».
  Os líderes políticos e económicos estão perante o desafio de mostrarem como o novo capitalismo mundial pode funcionar de forma a trazer igualmente benefícios para a maioria da população e não apenas aos gestores dos grupos e aos investidores . 
  Mas é precisamente o que os adeptos do mercado não conseguem demonstrar. Era e ainda é possível provar que a divisão internacional do trabalho, que não cessa de se agravar, contribui para fazer aumentar a produtividade mundial. De um ponto de vista económico, a integração do mercado mundial possui um alto grau de eficiência. Mas a repartição da riqueza assim engendrada, a máquina económica global, na ausência de intervenções do Estado, trabalha com a mais total ineficácia, visto que o número dos vencidos ultrapassa largamente o dos vencedores.
  É precisamente por esta razão que a política de integração global, conduzida até agora não tem futuro. O comércio livre mundial não poderá ser mantido sem que o Estado social seja garantido. É certo que as nações da Europa são hoje, incomparavelmente mais pacíficos do que há 50 anos, tanto interna como externamente. Já não há qualquer movimento comunista a tentar inverter a ordem social e em parte nenhuma da Europa há generais e industriais do armamento que sonhem sequer em lançar campanhas de conquistas dos Estados vizinhos. Mas o risco provocado pelo desenvolvimento anárquico dos mercados transnacionais é hoje igual ao que era nessa época. Mais uma vez, paira a ameaça de um crash bolsista mundial - e aqueles que jogam milhões e milhões no mercado informatizado da alta finança mundial sabem-no melhor do que ninguém. E mais uma vez, em todos os países, os partidos democráticos agonizam por não saberem como e onde podem reassumir o comando das operações. Quando os governos exigem incessantemente da sua população mais e mais sacrifícios em favor de um progresso de que só uma minoria beneficia, é natural que esperem que lhes seja mostrada a porta da rua. A cada ponto percentual a mais de desempregados, a cada nova baixa salarial somam-se os riscos de alguns políticos desesperados acabarem por accionar o freio de emergência do proteccionismo e reanimar guerras comerciais ou monetárias que mergulharão todas as nações numa situação económica ruinosa. E, para isso, não é necessário que os nacionalistas ou outros sectários ganhem as eleições. Os políticos adeptos do comércio livre transformar-se-ão em proteccionistas de um dia para o outro, se com isso virem que conseguem um número de sufrágios suficiente.
  Tudo pode suceder, mas não é obrigatório. Apesar de tudo, ainda dispomos hoje de uma vantagem inestimável: a história ensinou-nos que, assumindo o papel de cavaleiro solitário, uma nação não consegue escapar à armadilha do mercado mundial.Temos pois de procurar e optar por outras saídas. Quando se quer evitar o regresso ao nacionalismo económico, há que regulamentar o mercado, regenerando o sistema do Estado social de tal forma que os enormes lucros retirados do aumento da produtividade beneficiem igualmente todos os cidadãos. Por outro lado, não se poderá preservar esse vasto consenso que existe hoje sobre a necessidade de um sistema de mercado aberto ao mundo.
  Mas enganar-nos-íamos se julgássemos que bastaria escolher bons partidos-na Alemanha, em França,em Portugal ou em qualquer outro país europeu - para restabelecer a estabilidade económica e social através de um acto de vontade política. Não haverá nenhum caminho que nos conduza de volta aos anos 70 e 80 do século XX, na época em que os governos nacionais relativamente independentes estabeleciam eles mesmos a justa medida da redistribuição social na sua própria nação e atenuavam as crises cíclicas da expansão planificando os investimentos estatais. A integração económica foi demasiado longe para que tal seja possível. Na corrida mundial às partes do bolo do mercado mundial, as nações vão percorrendo uma auto-estrada de quatro vias (até ao grande cheque em cadeia) onde nenhum país consegue voltar atrás unicamente por sua vontade, a menos que que queira correr o risco de desaparecer.
  De qualquer forma, já não é desejável voltar atrás. A integração económica mundial, no final de contas, contém em si enormes possibilidades. A fantástica alta de produtividade poderia igualmente ser utilizada para fazer sair da pobreza uma parte cada vez mais importante da humanidade e para financiar nos antigos países da prosperidade a reconversão ecológica da economia do desperdício. Neste caso, porém, haveria que colocar uma trajectória social, tornando-a compatível com a democracia, a competição nos mercados mundiais, que até agora se tem revelado suicida. Haveria que transformar a globalização da injustiça num desenvolvimento que permitisse o equilíbrio global.
  Existem projectos e estratégias para bloquear este avanço em direcção à sociedade dos dois décimos. A sociedade dos 20/80, em que 20% da população são os incluídos e 80% os excluídos. O primeiro passo importante seria limitar o poder político de que dispõem os actores dos mercados financeiros. Criando-se um imposto sobre o volume financeiro das vendas de divisas e da concessão de créditos no estrangeiro, os bancos centrais e os governos doa países do G7 já não seriam obrigados a submeter-se incondicionalmente às exigências excessivas dos negociadores. Em vez de travar os investimentos praticando taxas de juro demasiado elevadas, em vez de combater uma inflação que não constitui ameaça, poderiam começar a trabalhar em conjunto, a encorajar a liberdade empresarial, permitindo que os bancos centrais concedessem empréstimos a preços baixos, o que favoreceria tanto o crescimento como o emprego.
  Tais medidas andariam inevitavelmente a par de uma reforma fiscal ecológica que tributaria severamente o consumo dos recursos naturais e valorizaria a mão-de-obra graças à diminuição dos descontos de carácter social. É a única forma de impedir o prosseguimento da pilhagem dos fundamentos ecológicos de todas as actividades económicas e de garantir o máximo de oportunidades às gerações futuras.
  Existe, por outro lado, um consenso alargado quanto à necessidade de melhorar o alcance e a eficiência dos sistemas educativos. Se é verdade que a sociedade industrial está a dar lugar à sociedade da informação, então é totalmente escandaloso constatar que tanto na Europa como noutros continentes existem ainda muitos jovens que não receberem uma qualquer formação e que as universidades estão a entrar em descalabro porque o boicote fiscal praticado pelos grandes grupos e pelos ricos empobrece os orçamentos dos Estados.
  Para se poder formar pessoas, bem como para se criar um maior número de postos de trabalho com os fundos estatais - investindo num sistema de circulação não poluente, por exemplo -, há que encontrar novas fontes de rendimento para os orçamentos públicos. Nem que fosse unicamente por esta razão, há que tributar os lucros financeiros dos mais abastados. Da mesma forma, elevadas taxas de IVA sobre os produtos de luxo poderiam assegurar uma maior justiça social.
  Quando os governos  já não podem responder a todas as questões existenciais referentes ao futuro senão evocando a inexorável condicionante da economia transnacional, toda a política se transforma numa comédia de impotência e o Estado democrático perde a sua legitimidade.
  A mundialização transforma-se assim numa armadilha para a democracia.

  Isto só pode acabar mal!


  Jorge Neves