terça-feira, 28 de novembro de 2017

NA NOVA ECONOMIA A LÓGICA DA INOVAÇÃO





Convido-o a fazer este exercício mental. Suponha que pretende vender X ao preço de Y euros. Parta do princípio que já descobriu como tornar X melhor, mais rápido ou mais barato do que outra pessoa qualquer. Talvez mais ninguém tenha sequer imaginado que houvesse um mercado para X, e o leitor seja o primeiro a vendê-lo. Os compradores começam a procurá-lo, porque o leitor está a oferecer-lhes um negócio fabuloso, e o leitor começa a ganhar muito dinheiro.

  Mas agora, não só mais compradores sabem do negócio que o leitor está a propor, como também outros vendedores têm conhecimento da situação. Os seus possíveis rivais podem não saber exactamente quanto é que o leitor arrecada, mas é possível que deduzam, porque sabem quanto é que o leitor está a pagar por todos os ingredientes de X, nomeadamente a mão-de-obra. A informação é barata e acessível, cada vez mais. Dentro de pouco tempo, surgirá um rival que proporá aos compradores o mesmo negócio e que arrecadará uma parte dos lucros do leitor. E depois mais outro, e outro, até que o lucro do leitor ficarão reduzidos quase a zero.

  O leitor pode tentar proteger o seu recém-inventado X com patentes de direito do autor. Estes mecanismos legais de protecção da «propriedade intelectual» são semelhantes àqueles que impedem as pessoas de roubar a propriedade tridimensional alheia. Mas a sua eficácia é limitada na economia emergente. Pelo simples facto de produzir X e de obter uma reacção positiva dos compradores, o leitor já está a revelar aos seus rivais que existe um mercado para X, e muitas vezes esta informação é mais valiosa do que qualquer outra. Assim, mais depressa do que o leitor gostaria, um deles descobrirá como fazer X ao mesmo preço sem invadir a sua propriedade intelectual. (Talvez ele reformule o seu X - o ponha de lado e o modifique o suficiente para inventar outra maneira de o fazer sem colidir com a sua patente ou, se for um produto de software, uma receita ou uma obra de arte, ele arranje outro modo de se exprimir que contorne os seus direitos de propriedade). Talvez se limite a ignorar os seus protestos e o desafie a mover-lhe um processo judicial; ele é mais rico que o leitor e pode pagar uma longa batalha judicial. E mesmo que o leitor também possa pagá-la, nada lhe garante que a vença: o roubo de uma ideia nunca pode ser provado com a mesma exactidão que o roubo de um automóvel. Os tribunais estão cada vez mais entupidos com processos que dizem respeito a quem inventou o quê e quando.

  Os lucros do leitor diminuem. E agora tem três opções: (1) Pode descobrir como pode reduzir os seus custos e oferecer X por menos de Y euros. (2) Pode descobrir como produzir um X muito melhor com os mesmos custos. (3) Pode usar a experiência que foi adquirindo para ser o primeiro a lançar um produto Z totalmente novo, algo que os compradores gostem ainda mais do que de X e pelo qual estejam dispostos a pagar mais. Qualquer destas estratégias, ou todas, lhe devolverá a sua posição de liderança, porque o leitor não pode adivinhar qual será a melhor. Mas, atenção! Todas elas são caras e arriscadas.

  A primeira estratégia, a redução de custos, é a que comporta menos riscos, mas será dispendiosa a curto prazo, porque o leitor terá de pagar como há-de aumentar a eficiência da sua actividade. Digamos que contrata um consultor de gestão, o qual lhe recomenda que instale um novo software capaz de produzir mais com menos empregados, que subcontrate no exterior qualquer coisa que possa ser feita com menores custos e que corte nos salários dos empregados que lhe restam - talvez dando-lhes uma participação nos lucros em vez da opção de compra de acções.O leitor aceita este conselho e paga a sua factura. E pensa que devia ter optado pela profissão de consultor de gestão.

  A segunda estratégia, que em aperfeiçoar o produto, exige dinheiro para a investigação e desenvolvimento, e depois para o marketing. é mais arriscada, porque o leitor não pode adivinhar qual será a reacção dos clientes a um produto X recém-aperfeiçoado. Quando se trata de aperfeiçoar um produto, atá  a Coca-Cola pode errar. Mas pelo menos, o leitor sabe que os seus clientes gostam de X, e até certo ponto pode esperar que eles reajam bem a um X mais rápido, mais forte, mais leve, mais saboroso ou mais bonito.

  A terceira estratégia, que consiste em criar um produto (Z) totalmente novo, é a mais cara e a mais arriscada de todas. Exige mais investigação de base, que pode não dar origem a nada de valor.  Z é suficientemente diferente de X para que o leitor nem saiba ao certo se há mercado para ele. Por outro lado, se o leitor optar por apostar no dinheiro, a recompensa de Z será maior de todas. É provável que fique com o mercado de Z só para si durante muito tempo, antes que os seus concorrentes descubram como hão-de produzir outras versões.

  É de esperar que pelo menos umas destas estratégias reponha os seus lucros durante um período suficientemente longo, para que o leitor seja ressarcido dos custos de explorar outros produtos e mantenha a posição de liderança. Mas há uma má notícia que deixei para o fim, porque não queria desanimá-lo: o leitor nunca atingirá um ponto em que possa descontrair-se. Mesmo que seja bem-sucedido, o seu sucesso será temporário, porque os seus concorrentes tratarão de seguir-lhe rapidamente as passadas. Há uns anos, na era industrial, a concorrência era menor porque os produtores estavam amarrados à produção em larga escala. Mas hoje esses rivais são lestos; não há espaço para a descontracção. O leitor pode obter um bom lucro durante algum tempo, mas, para sobreviver, terá de investir a maior parte dele numa destas três estratégias.

  Se se sair bem neste jogo - continuar a reduzir custos, a acrescentar valor e a inventar - conseguirá atrair clientes e parceiros estratégicos.

  Quanto maior for o número de apostas, maior será a probabilidade de que o leitor ganhe o suficiente para cobrir as outras apostas e aumente a situação de vantagem em relação aos seus rivais.

  Ainda assim, mesmo com mais capital, a corrida não terá fim. Todos os produtores têm medo - fazem apostas, matam-se a trabalhar e protegem a retaguarda. Já dizia Andrew Grove, o notável presidente da Intel, que só os paranóicos sobrevivem na nova economia. Ele podia ter acrescentado que o mesmo sucede aos obcecados e aos compulsivos. Podemos ficar esfalfados, mas, graças ao nosso esforço constante, a economia abunda em INOVAÇÃO. A situação dos consumidores é muito mais confortável.


  Jorge Neves
 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

NA NOVA ECONOMIA A NECESSIDADE DO MAIS RÁPIDO E DO MAIS BARATO






  O sistema económico que dominou a maior parte do século XX permitiu que produtores e vendedores levassem uma vida mais ou menos descontraída. As economias de escala e os mercados estáveis (com os correspondentes oligopólios e entidades reguladoras) protegeram as grandes empresas da concorrência sem regras. Os únicos concorrentes dos vendedores de proximidade e de pequena dimensão eram os outros estabelecimentos e serviços locais.

  Nas empresas, tal como nas pessoas, uma existência confortável tende a enfraquecer a motivação para trabalhar mais. A antiga economia industrial, na sua maior parte, não gerou um grande zelo empreendedor. As grandes empresas mantiveram departamentos de investigação e desenvolvimento que produziam um número respeitável de inventos patenteados, mas as grandes rupturas foram raras, e essa era a intenção. Uma dose exagerada de mudança ameaçaria a capacidade de planear e poderia destabilizar o sistema. A maior fatia da inovação situa-se à margem, no design de cosmética, mais no que aquilo que é básico. As traseiras dos automóveis são mais compridas, mas a qualidade da suspensão e dos motores melhorou mais devagar. Surgiram detergentes «novos e melhores» para as máquinas de lavar roupa e pequenos electrodomésticos de cozinha, com uma regularidade previsível, mas nunca particularmente inovadores nem aperfeiçoados.

  Em meados de século XX, os vendedores puderam descansar quanto ao controle dos seus custos. Com os sindicatos a negociarem as condições salariais para todos os sectores da indústria, os aumentos dos salários foram transferidos para os consumidores através de preços mais altos e não fazem perigar as empresas. Nem os vendedores estavam interessados em sobrecarregar indevidamente os seus fornecedores. Mudar de fornecedor ameaçava a eficiência da produção em larga escala, cujos fluxos suaves exigiam contratos a longo prazo e relações estáveis.

  Em resultado destas acomodações de empregados e fornecedores, os salários e os preços subiram em flecha. As subidas dos preços aumentaram o custo de vida, o que faz com que os trabalhadores tentassem obter novos aumentos salariais. De vez em quando, os governos procuravam controlar os salários e os preços directamente, fixando tectos salariais e de preços ou exortando os representantes patronais e os dirigentes sindicais a manter os preços dentro dos limites razoáveis, mas sem grandes resultados. Assim os ciclos inflacionários ganharam fôlego.

  A economia emergente proporciona um contraste notável. Os compradores são menos afectados pela escala da produção, pela distância ou pela informação. Como têm acesso a um leque cada vez mais amplo de produtos e serviços vindos de todo o mundo e dispõem de melhores dados comparativos sobre preços qualidade, conseguem mudar mais facilmente para algo melhor. Quanto mais fácil é para os compradores mudar para um negócio melhor, mais difícil é para os vendedores atraí-los e conservá-los.

  Alguns investigadores atribuem os recentes surtos de inovação e produtividade única e exclusivamente às novas tecnologias. Mas deixam de fora os passos cruciais que explicam por que motivos é que os vendedores se sentem muito mais obrigados a inovar. As novas tecnologias de comunicação, transporte e informação estão a dar mais poder aos compradores para encontrarem e mudarem para algo melhor. Por sua vez, esta situação pressiona os vendedores a produzir melhor. Para sobreviverem e prosperarem, os vendedores são obrigados a reduzir permanentemente os custos e a acrescentar valor, mais depressa do que os seus rivais. Não só têm de oferecer produtos e serviços melhores, como têm de aperfeiçoar constantemente as sua empresas, para que elas sejam capazes de gerar fluxos de melhores produtos e serviços, mais depressa do que a concorrência.

  Esta tendência ajuda a explicar por que motivo é que a inflação é hoje uma ameaça menor, mesmo durante os períodos em que se regista uma baixa taxa de desemprego. Os vendedores têm de encontrar permanentemente novas formas de reduzir os custos e de baixar os preços para se manterem competitivos. Isto também ajuda a compreender porque é que a produtividade (produção por unidade laboral) está a aumentar, depois de ter caído a pique na década de 70. As empresas são cada vez mais pressionadas a fazer mais com menos.

  A competição mais feroz estende-se igualmente a instituições sem fins lucrativos. Até as universidades, os hospitais, os museus e as instituições de beneficiência mais tacanhas e preconceituosas são hoje obrigadas a inovar, porque estão submetidas à mesma dinâmica subliminar que afecta o resto da economia. Beneficiários, patronos e doadores dispõem cada vez de mais meios para obter melhor informação sobre o desempenho das instituições e têm cada vez mais hipóteses de mudarem para outra que mais os satisfaça. É por isso que também as instituições sem fins lucrativos têm de ser melhores, mais rápidas e mais baratas.


Jorge Neves

terça-feira, 14 de novembro de 2017

NA NOVA ECONOMIA O ESPÍRITO DA INOVAÇÃO




  À medida que as novas tecnologias proporcionam a todos os compradores um leque de opções mais amplo e um acesso mais fácil a algo melhor, aumenta a insegurança de todos os vendedores. A maioria das pessoas prefere sentir-se segura, mas a insegurança não é perniciosa para a economia. Ela fomenta a inovação, o outro grande princípio da Nova Economia. Compreendê-lo constitui um dos passos para entender o que está a acontecer aos outros aspectos da nossa vida.

  A falácia Neoludita

  Mas, primeiro, impõe-se que destruamos um mito. Alguns futurólogos confundem insegurança com desemprego e queixam-se de que o avanço tecnológico acabará por destruir postos de trabalho. Estão tão enganados como os seus precursores, os ludistas ingleses que, no princípio do século XIX, destruíram os teares eléctricos que deixaram os tecelões sem emprego.

  À medida que as sociedades se tornam mais prósperas e que a tecnologia permite que toda a espécie de coisas se tornem mais acessíveis, há uma parcela cada vez maior do rendimento pessoal que é gasto em desejos insaciáveis que se prolongam infinitamente para além das necessidades básicas da alimentação, vestuário e abrigo. Independentemente do grau de satisfação desses desejos insaciáveis, as pessoas desejarão sempre mais. É neste domínio que é de esperar que a economia cresça e que os postos de trabalho se multipliquem.

  SAÚDE. Por muito bem que os seres humanos se sintam e por muito longa que seja a sua vida, eles desejarão sempre sentir-se melhor e viver mais tempo. É por isso que não há limites para a procura de aconselhamento, medicação, aparelhos, tratamentos e exercícios que prologam a existência física e o bem-estar.

  ENTRETENIMENTO. Independentemente do número de pessoas que já gozam a vida, elas desejarão sempre mais divertimento, emoções fortes, surpresa, suspense, tililação, entusiasmo e prazer estético. Consequentemente, não haverá limite para a procura de filmes de entretenimento, vídeos, espectáculos teatrais, música, acontecimentos desportivos, viagens e histórias, nem para experiências que desafiam a morte.

  ATRACÃO AOS OLHOS DOS OUTROS. Por muito belos que sejamos, desejamos sempre ser mais atraentes. Por isso haverá sempre um mercado ilimitado para coisas como vestuário á moda, cosméticos, vaporizadores para refrescar o hálito, aparelhos para os dentes, cintas para disfarçar a barriga, cremes bronzeadores, tintas para o cabelo, dietas e um sem número de conselhos sobre o  modo de nos tornarmos mais sensuais, encantadores, convincentes, em suma, mais atraentes.

  ESTÍMULO INTELECTUAL.  Apesar dos danos psíquicos provocados pela terrível fase da educação oficial, a maior parte dos cérebros humanos continua a desejar ser provocada. Assim, não há limite natural para o desejo de notícias, informações, explicações, descrições históricas e justificações.

CONTACTO. Com excepção dos eremitas e dos misantropos, os seres humanos são animais sociais, dotados de uma necessidade insaciável de contactar com outros seres humanos. Por este motivo, haverá sempre um mercado ilimitado para meios mais expeditos, mais fáceis e mais baratos de contactarmos com os outros e também de sermos acarinhados, cuidados, massajados e sexualmente satisfeitos.

BEM-ESTAR FAMILIAR. Os seres humanos foram talhados para o altruísmo, sobretudo em relação àqueles cujos genes mais se parecem com os seus. Apesar das discussões familiares, não existe limite natural para a felicidade ou para a saúde que a maioria das pessoas deseja para os seus filhos e entes queridos mais próximos. Daí a abundância de bens e serviços destinados a cuidar, educar, inspirar e, de qualquer modo, garantir o bem-estar daqueles que amamos.

  SEGURANÇA FINANCEIRA. O dinheiro não dá felicidade, mas é um meio de adquirirmos muitas das coisas que a dão. Por isso, existirá um mercado quase ilimitado para a consultoria financeira e de planeamento, para programas destinados a maximizar lucros sobre as poupanças e para seguros que protejam do azar.

  Estes desejos não podem ser «satisfeitos», no mesmo sentido em que a fome, o sono ou até a ambição podem sê-lo. Mas talvez, com excepção da atracção pessoal, a satisfação não depende de conseguirmos mais do que os outros conseguiram; ela pode ser alcançada independentemente da posição relactiva em que nos encontramos. E como a oferta destes desejos depende mais das boas ideias do que da escassez de recursos, a satisfação de uma pessoa não se obtém necessariamente à custa da satisfação de outra.

  Estas sete áreas representam mercados em muito rápido crescimento, nos quais uma grande parcela da mão-de-obra criará e distribuirá produtos, serviços e aconselhamento nas décadas seguintes.  Essa mão-de-obra  fará o seu percurso através de software, projectos de engenharia, páginas na web, serviços financeiros, análises estatísticas, partituras musicais, guiões para filmes e publicidade. As nova tecnologias ajudarão os criativos a executar todo este trabalho melhor e mais depressa, permitindo-lhes que dêem um curso mais livre à sua imaginação.

  Outra parcela da mão-de-obra satisfará estas necessidades a nível individual, nomeadamente os cuidados com o corpo e o espírito, através daquilo a que hoje chamamos especialistas de entretenimento, instrutores de aeróbica, formadores pessoais, terapeutas de massagem, guias turísticos, guias espirituais, treinadores pessoais, professores, motoristas, empregados de mesa, etc., etc., etc. Além da assistência a prestar a bebés e crianças, aos doentes e deficientes, e cada vez mais, aos idosos. Na segunda década do século XXI, milhões de bady boomers debilitados precisarão de uma grande dose de atenção pessoal. E não se contentam com pouco. Esperam uma abundância de «Med-Meds» com infra-estruturas médicas. Mergulho de manhã e oxigénio à tarde.

  A maior diferença entre o antigo e o novo trabalho é a pressão crescente em fazê-lo melhor, mais depressa e mais barato. Mas até que ponto? Não existe um limite. Até as barreiras científicas, outrora consideradas estanques, estão a ceder.


  Jorge Neves
 
 

domingo, 12 de novembro de 2017

NA NOVA ECONOMIA DA MAIS ALTA QUALIDADE E AO MELHOR PREÇO




  Uma velha limitação, que também está a desaparecer, é a falta de informação sobre os melhores locais para o negócio. Antigamente, comparar preços antes de fazer uma compra era um tormento.

  Lembro-me de calcorrear atrás dos meus pais as ruas da cidade à procura de um artigo para o lar ao melhor preço. Sempre que estavam prestes a decidir-se, o meu pai resolvia ir visitar mais uma loja na tentativa de conseguir um preço ainda mais baixo. Ao fim do dia os meus pais estavam exaustos e confusos e eu arranjara uma dor de cabeça.

  Também para os artigos menos caros, como electrodomésticos recorriam a anúncios publicados no jornal local sobre as baixas de preços que duravam «poucos dias» e que diziam respeito a um «stock limitado».

  A qualidade comparativa era uma questão mais arriscada. Os artigos caros eram e são semelhantes em muitos aspectos, graças à produção em massa e aos oligopólios. Muitas vezes surgiam e surgem no mercado com diferentes roupagens, acessórios e opções. Sabia-se e sabe-se que por exemplo os vendedores de automóveis anunciam saldos de automóveis que estão praticamente reduzidos ao chassis.

  Nem sequer um comprador diligente comparava as condições oferecidas por mais de um punhado de vendedores, em geral os dos arredores, que anunciavam no jornal local ou nas páginas amarelas ou que eram conhecidos de vizinhos ou amigos. Sabíamos que, se nos confinássemos a marcas nacionais e ou marcas internacionais conhecidas, não erraríamos muito. Mas se a nossa prospecção envolvesse produtos ou serviços complexos, ou únicos, ou daqueles a que as pessoas reagem de forma diferente consoante os seus gostos e temperamentos, não iríamos além da nossa zona de residência, o que nos permitiria vê-los com os nossos próprios olhos e obter informações em primeira mão.

  Tudo isto está a mudar, porque as novas tecnologias de comunicação, de transporte e informação permitem comparações mais rápidas. Através da Internet, os compradores começam a obter dados mais fidedignos sobre os preços e a qualidade de uma vasta gama de produtos e serviços em todo o mundo. As universidades, hospitais, as empresas, os bancos e os vendedores de todos os tipos lutam para atrair mais clientes a uma distância muito maior,  por vezes à escala nacional e até internacional. É como se, de repente, todos os produtos e serviços tivessem sido colocados uns ao lado dos outros num bazar global em que todos os preços e toda a informação sobre a qualidade sejam visíveis para todos os compradores. Quanto mais vendedores aparecem no bazar - que criam os seus próprios sites na Web, oferecem produtos online e contribuem com informações para vários portais - mais isolados e marginalizados ficarão os que não fizeram o mesmo. É a exposição no bazar, ou a morte. Mas os que participarem, terão de preparar-se para uma competição feroz.

  Podemos negociar um empréstimo ou as condições de uma hipoteca na Web. Os clientes de empresas estão a solicitar aos fornecedores que forneçam as suas ofertas em leilões na Web. Os vendedores começam a oferecer descontos maiores em produtos remanescentes que de outro modo seriam postos de parte - aviões que se arriscam a partir com lugares vagos, camiões que regressam de uma entrega com contentores quase vazios, hotéis que chegam ao fim com quartos vagos, estações de rádio cujo espaço publicitário ainda não está totalmente preenchido,etc, etc.

  Um dia, teremos o nosso próprio «cão de caça» electrónico, que pode ser programado para correr no ciberespaço e trazer-nos os melhores negócios que encontrar. E, à medida que aumentar o número dos que vendem os seus serviços no mercado aberto, mais numerosos serão os dados comparativos sobre a nossa experiência e as nossas competências que o bazar global oferecerá aos potenciais compradores. E seremos nós a ser descobertos.

  Negócios que fazem luzir o olho, oportunidades com que nunca sonhamos...Exactamente o que pretendemos, vindo de qualquer parte do mundo, ao melhor preço. Ainda não chegamos a esta fase e talvez nunca chegaremos completamente, mas a tendência é inconfundível e está a acentuar-se rapidamente. Isto está a acontecer porque as novas tecnologias aumentam o número de opções e facilitam a descoberta e a mudança para algo melhor. O leque mais amplo de opções e a maior facilidade de mudança estão a intensificar a competição entre os vendedores. Por sua vez, esta competição exerce uma pressão cada vez maior sobre eles no sentido de oferecerem negócios fabulosos. Consequentemente as opções continuam a aumentar e a melhorar. Os negócios são ainda melhores, as oportunidades são maiores, e as hipóteses parecem ilimitadas. É um ciclo virtuoso, e nós, compradores, somos beneficiários.

  Se a história fosse só esta, viveríamos felizes para sempre. Mas a vida não se limita a negócios fabulosos. Nós não somos apenas compradores e investidores. Quase todos nós temos de trabalhar para viver. Além disso, temos relações que são importantes para nós, que ajudam a definir quem somos e o que pretendemos da vida - as nossas famílias, os nossos amigos, as nossas comunidades. A economia emergente também está a alterar estes aspectos da nossa vida. E nem a nossa vida em geral nem a nossa vida profissional estão a mudar para melhor em todos os casos. A Era dos Negócios Fabulosos esconde uma armadilha. Aqui reside o dilema do nosso tempo.


Jorge Neves