quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

LIDERANÇA PESSOAL - RELAÇÃO COM OS PAIS








  Muitos psicólogos acreditam que os sentimentos difíceis e dolorosos têm origem na infância. Alguns expressam-no da seguinte forma: primeiro fomos magoados e, como não conseguimos transmitir a nossa dor por palavras, ela transforma-se em zanga; e como não tinha-mos uma saída para a zanga, esta transforma-se em angústia. 
  Todos temos arranhões e cicatrizes da infância. Isso não significa que os nossos pais ou outros nos quisessem magoar, mas sim que os seres humanos nem sempre são capazes de amar incondicionalmente. Não conseguindo compreender isso, as crianças sentem apenas a dor associada à perda de amor. Alguns psicólogos acreditam que esta dor é escolha nossa e que na sua base está a falta de amor.
  Existem muitas teorias sobre o assunto. Curiosamente, muitos especialistas não estão de acordo. Prefiro acreditar que eu e você tivemos muito amor quando nascemos - a abordagem mais construtiva à questão dado que ninguém sabe realmente a verdade.
  A Bíblia diz que somos feitos à imagem de Deus. Está também escrito que Deus é amor. Da forma como vejo as coisas, o bebé-nascido é o fruto e a expressão do amor, que depois enfrenta o desafio de viver com a mãe e o pai.
  Em tempos, não tinha consciência de quanto os nossos pais influenciam a nossa vida. Muitos participantes em sessões de formação de vendas em que participei obtêm conhecimentos valiosos e inesperados quando começam a analisar a forma como os nossos pais e outras pessoas dominam efectivamente a forma como pensamos enquanto jovens - e continuam a fazê-lo mesmo quando somos adultos. 
  É impossível encontrarmos paz de espírito ou felicidade completa enquanto continuarmos ressentidos com os nossos pais. O ressentimento continua a controlar as nossas vidas se não nos libertarmos activamente  dele. Não podemos libertar-nos  dos nossos pais culpando-os ou continuando magoados. A ideia de que temos a tendência para não gostarmos daqueles com quem mais nos parecemos é especialmente verdade no caso das figuras paternas e maternas. Se continuarmos a julgá-los, negamos a nós próprios o conhecimento das nossas semelhanças com eles, especialmente nas questões em que mais os criticamos. 
  Há alguns anos, acreditava-se amplamente que 40 por cento da população tinha questões por resolver com os pais. Pela minha experiência, acredito que ronda os 90 por cento.
  Quando alguém aparecia angustiado em reuniões de vendas a que presidi, uma das minhas primeiras perguntas é se estava zangado com um dos pais. Claro que me sentia à vontade para poder fazer esta pergunta.
  Raramente me enganava nesta abordagem. As respostas revelavam muita auto-desilusão. 
  "Aceitei desde muito cedo o facto de os meus pais terem sido como eram e não fazia sentido ter tentado mudá-los. Como tal sinto-me à vontade com a situação." assim, eram muitos os desabafos. Tal racionalização e negação caracterizava muitas relações pais-filhos. Em última análise, uma ligação tão prolongada com os pais pode ser um grande entrave ao crescimento pessoal do indivíduo.
  Outro mecanismo de confronto pode ser o elogio efusivo dos pais. A Elisa de 35 anos, contou-me que ainda vivia em casa dos pais devido ao facto de eles serem "fantásticos". Não aprofundei este assunto no primeiro dia - toda a gente tem direito àquilo em que acredita - e os seus pais podia ser pessoas excelentes. O que era óbvio, é que Elisa não estava "liberta" dos seus pais.
  "Odeio-os"! À minha mãe e o meu pai". Odeio-os! Este é o lado oposto.
  Esta história soa-lhe familiar? Ensinaram-nos que as nossa vidas serão boas e felizes se honrarmos a nossa mãe e o nosso pai. Acredito, contudo que, para sermos coerentes com este conceito, primeiro temos de reconhecer os nossos verdadeiros sentimentos e eliminar qualquer zanga ou ressentimento que permaneça. É a atitude emocionalmente inteligente a tomar.
  Muitas pessoas têm receio de abandonar o ressentimento em relação aos pais, apesar de saberem que não irão alcançar uma vida melhor se não se libertarem desses sentimentos. Sempre que se sentir bloqueado, furioso ou magoado, trabalhe esses sentimentos, reconheça-os e analise-os profundamente. Tente perceber onde estão no seu corpo. O que sente? Que outros sentimentos estão escondidos por detrás dos sentimentos iniciais? O que lhe dizem? Seja paciente consigo - está a trabalhar com uma ferramenta importante, que irá ajudá-lo a aceder à sua inteligência emocional.
  Em adulto, quando somos magoados ou negligenciados, podemos transmitir os nossos sentimentos por palavras. Em criança, quando uma ferida nos foi originalmente infligida,não fomos capazes de o fazer. Além disso, continuamos a ser magoados quando alguém coloca "sal" nessa primeira ferida. Algumas pessoas até defendem que não podemos sentir dor em adultos, a não ser que tenhamos sido feridos de uma forma semelhante na infância. Seja qual for a origem das nossa feridas, ao senti-las e reconhecê-las  somos capazes de as curar. Com o tempo, as nossas feridas emocionais podem ser completamente saradas. A zanga incontrolável que por vezes surge quando tocamos numa ferida antiga mostra-nos que estamos a aproximar-nos da origem do problema. Os nossos sentimentos são sempre inteligentes: dizem-nos o que se está a passar e é sensato aceitá-los. O que fazemos no calor da emoção, muitas vezes não é assim tão inteligente; mas é inteligente ter em atenção as mensagens que os nossos sentimentos nos transmitem. A zanga dá-nos boas pistas para resolver conflitos emocionais. Pode ser uma forma de encontrar-mos a essência das nossas feridas, senti-las completamente, compreende-las e, por fim, sermos capazes de as limpar e curar.

  Quando revelamos e partilhamos as nossas marcas dolorosas com os outros, as relações pessoais desenvolvem-se e melhoram, o que nos permite ver-nos uns aos outros de uma forma mais transparente. É vital reconhecer completamente as nossas feridas, sem protecção, para podermos descrevê-las a nós e aos outros. Isto ajudará a curar as nossas almas. Se negligenciarmos entrar em contacto com todos os sentimentos associados a uma ferida e não revivermos o incidente original, então a ferida poderá nunca desaparecer. Sentir-se ferido é ter uma marca escondida , sensível, que pode ser estimulada. Todos temos uma memória emocional.
  Se o nosso chefe falar connosco de uma forma que é semelhante à do nosso pai e se a tivermos vivido como dolorosa na infância, sentimos novamente a mesma dor. Quando confrontamos a nossa vulnerabilidade, ficamos mais fortes. Se enfrentarmos a dor e não nos libertarmos a circundá-la, seremos seres humanos mais preenchidos.

  Sei que uma das primeiras fases na orientação de líderes é definir que tipo de feridas se atravessam no seu caminho. Descobre-se sempre algumas e os líderes com quem trabalhei tornaram-se melhores quando neutralizaram os seus "pontos quentes". O passo seguinte é prestar diariamente atenção ao que sente, de modo a gerir as emoções à medida que elas surgem. Estar consciente das suas emoções é o ponto de partida, depois senti-las, a seguir deixá-las dizer-lhe o que têm a dizer. Aprenda a ouvir-se e a encarar com seriedade os seus sinais e os dos outros. Esta é uma ferramenta de liderança pessoal que todos precisamos de desenvolver, isto é, utilizar a sua Inteligência Emocional.
  É reconfortante partilhar os nossos pensamentos e sentimentos com aqueles que amamos e respeitamos. Fazê-lo cura feridas e alivia a dor. Se está com problemas, não hesite  em pedir ajuda a alguém de quem gosta que escute os seus sentimentos mais profundos. Diga-lhe que precisa que esteja ali e que o ouça. Diga-lhe que não espera nenhum conselho. Muitas vezes, é mais do que suficiente que o seu amigo apenas o ouça.


  Jorge Neves  

  



Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.